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Por Fernanda Freitas

Quinta-feira, 21.04.11

'CRÓNICA DE UMA CASA ANUNCIADA'

 

Foram cerca de dois anos. Curiosamente, para o "comum dos mortais" seriam dois anos de penar. Para ela, foram só mais dois anos de resistência e esperança.Só. Porque toda a sua vida tem sido marcada por estas palavras.Desde o dia em que nasceu.Há 28 anos, Mafalda Ribeiro nascia com uma doença gravíssima- osteogénese imperfeita, a doença dos ossos de vidro.Como se entende pela própria descrição da doença, os ossos são frágeis e partem muito facilmente. Aliás, quando nasceu, alguns já vinham  partidos...Para com os pais deste bebé, os médicos foram diretos: não nutram muito afeto pela criança, vai durar poucos dias...Os médicos foram até muito diretos: secaram o leite da mãe - sem conhecimento e muito menos consentimento - para que esse vínculo extraordinário e único entre mãe e filha nem chegasse a acontecer.A resistência começou ali, naquele berço da maternidadeA esperança também.Uns dias, uns meses, uns anos.Ultrapassou as expectativas. Todas.Chegou à escola "primária", passou pela secundária, chegou aos bancos da faculdade. A esperança prosseguia.Teve direito, como todos os formados,  a fitas assinadas , traje académico e capa preta (feitos à medida dos seus 98 centímetros)Começou a trabalhar, apesar das suas limitações e dos obstáculos que todos os dias encontrava pelo caminho. Mais uma vez a resistência.

 

A empresa onde hoje é técnica de comunicação acabou por instituir uma série de boas práticas de mobilidade e não só - que afinal favorecem todos os colaboradores.Dá prazer ver a forma como Mafalda é acarinhada pelos colegas: não por caridade ou piedade; mas porque reconhecem nela uma prova viva da tal esperança que muitos teimam em querer deitar por terra. A Mafalda é um símbolo de que vale a pena acreditar, mesmo que tudo à nossa volta insista em mostrar o contrário.Há dois anos, a Mafalda questionou-me sobre o facto de poder vir a ter uma casa. A minha primeira reação foi de medo : Seria capaz? Como é que se movimentaria não só dentro de casa mas fora dela? Apesar de uma cadeira com motor elétrico que lhe dá uma autonomia extraordinária, chegaria à rua? Conseguiria ir à padaria, ao cabeleireiro? Seria capaz de levar uma vida normal, de “bairro”, sem ter por perto uns braços que a levantassem sempre que encontrasse, por exemplo, um carro mal estacionado?E, claro, a grande questão: conseguiria crédito bancário?Felizmente há instituições que cumprem o que apregoam. Que não usam a responsabilidade social como bandeira de marketing. Que integram valores e princípios que depois são postos em prática, tornando-se atores sociais fundamentais, conscientes do seu papel de cidadania empresarial.A Mafalda assinou há um mês o seu contrato de crédito para habitação através do Montepio.Para que fique desde já bem claro- eu nem sequer tenho conta nesta instituição. Este texto, inclusive,  poderá ser (mal) interpretado como “publicidade”. Mas de consciência tranquila repito:o Montepio concedeu um crédito-habitação a uma pessoa com  95% de incapacidade.A uma pessoa cuja esperança média de vida foi, há quase três décadas, de meia dúzia de dias.

 

Hoje, Mafalda tem uma casa. Já escreveu um livro (“Mafaldisses- crónicas sobre rodas”, ed. Papiro ); prepara-se para escrever outro. Tem já consigo tudo o que precisa para avançar para um curso de condução e trabalha para conseguir em breve pagar a adaptação de um carro.Dois anos depois da nossa primeira conversa, do arranque do processo da procura da casa ideal, do desenrolar de eventos até à assinatura da escritura, vi-a , finalmente, num sábado do passado mês,  a abrir a custo, a enorme e pesada porta (a fechadura ainda não foi adaptada…) e a entrar com “a roda direita”. Porque só assim sabe fazer as coisas. Mesmo as mais difíceis. Daquelas que eventualmente muitos desistiriam ao fim de alguns meses , após queixas generalizadas da falta de oportunidades, dos obstáculos que a sociedade nos impõe, das dificuldades desta vida…Às vezes a Mafalda pára e com olhinhos brilhantes pergunta-me : isto está mesmo a acontecer? Claro que está, Mafalda. Claro que está.

 

FERNANDA FREITAS, coluna "no Feminino", pág. 54, in Revista Lux Woman, Maio de 2011

 

 

Obrigada minha cronista favorita pela tua omnipresença neste processo (e  por tantas coisas "excelentemente boas"). Pelas tuas palavras escritas. Pelas tuas mãos e pela tua fé. Obrigada por teres dado nome a esta "casinha" e fazeres tão parte da outra. É uma honra ser editada por ti. A mini proprietária MR.

 

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publicado por Mafalda Ribeiro às 15:57


4 comentários

De Eunice Andrade a 21.04.2011 às 22:25

Claro que mereces minha querida princesa, tu mais que ninguém, pela tua força e coração que para mim são um exemplo! Gosto de ti e desejo que sejas mais feliz que nunca, beijinhos!

De Joana Rosa a 21.04.2011 às 23:18

Mafy.... Mafaldinha.... Mafaldisses.... Mafalda... Ai, estou sem palavras, é um artigo muito bonito e forte que demonstra seres uma mulher diferente das outras por teres aquela força de vontade tão grande. Raramente se encontra pessoas com tamanha vontade de viver. Para mim és uma óptima referência, um "modelo" a seguir para aquelas pessoas que só passam horas e horas a fazer queixinhas da vida, que a vida é injusta, blá blá blá.... A vida não é difícil, as pessoas é que não sabem tornar a vida SIMPLES e viver sem complexos!
Continua assim Grande Mafalda

De Luís Oriola a 22.04.2011 às 00:10

De ficar sem palavras...!
Nativo do que é "Natural", ocorrem, ao longo da vida, uma série de acontecimentos que por muitas investigações que se façam, equações que se resolvam, fórmulas se criem, e por aí a fora..., facto é, que continuam a existir coisas para as quais não se encontram respostas, convertendo tais acontecimentos em fenómenos inexplicáveis.
Querida e Grandiosa Mafalda, fonte inesgotável de energia, referência universal, que com todas as relações que estabelece, revela e faz despertar nas pessoas o sentido de viver, o reencontro com a sua própria identidade, o despertar da consciência e até mesmo um rumo para vida.
Amei saber que alcançaste mais um objectivo e que continuas, como sempre, com essa força inesgotável de lutar pela vida e pelos objectivos.
Saúde e sorte e muita felicidade. ;)

Aproveito para deixar também uma palavra de apreço à tua querida amiga Fernanda pelas palavras que deixa escrito e pelo que representa. Sempre a valorizar! :)

Beijos e abraços.

Luís Oriola

De Fernando Francisco a 27.04.2011 às 22:23

Tive o prazer de presenciar a abertura da pesada porta e Deus sabe tal como algumas (poucas) pessoas sabem o signficado e sentimento de eu estar envolvido nesta passagem de testemunho para uma pessoa especial como a Mafalda! Muita sorte para gozar a SUA NOVA CASA e que Deus dê força aqueles que tal como a Mafalda tem dificuldades acrescidas nesta luta diária chamada Vida...

P.S:Parabéns Mafalda pela sua força de vontade, parabéns Fernanda pela divulgação merecida

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